RELATÓRIO DE JUNILIO

DE PARTIBUS DIVINAE LEGIS

LIBER PRIMUS

CAPUT III

De historia

AS PARTES DA LEI DIVINA

PRIMEIRO LIVRO

CAPÍTULO III

Sobre a História

Discipulus. Historia quis est?

Magister. Praeteritarum rerum praesentiumve narratio.

Discípulo. O que é História?

Mestre. A narração das coisas passadas e presentes.

D. In quibus libris divina continetur historia?

M. In septemdecim: Gen. 1, Exod. 1, Levit. 1, Num. 1, Deuter. 1, Jesu Nave 1, Judicum 1, Ruth 1, Regum secundum nos 4, secundum Hebraeus 2, Evangeliorum 4, secundum Matthaeum, secumdum Marcum, secundum Lucam, secundum Joannem, Actuum apostolorum 1.

D. Em quais livros está contida a História Divina?

M. Em dezessete: Gênesis 1; Êxodo 1; Levítico 1; Número 1; Deuteronômio 1; Jesus Nave 1; Juízes 1; Rute 1; Reis, segundo nós 4, segundo os Hebreus 2; Evangelhos 4, segundo Mateus, segundo Marcos, segundo Lucas, segundo João; Atos dos Apóstolos 1.

D. Nulli alii libri ad divinam historiam pertinent?

M. Adjungunt plures: Paralipomenon 2, Job 1, Esdrae 2, Judith 1, Esther 1, Macab. 2.

D. Nenhum outro livro pertence à História Divina?

M. Muitos acrescentam: Paralipômenos 2, Jó 1, Tobias 1, Esdras 2, Judite 1, Ester 1, Macabeus 2.

D. Quare hi libri non inter canonicas Scripturas currunt?

M. Quoniam apud Hebraeos quoque super hac differentia recipiebantur, sicut Hieronymus caeterique testantur.

D. Por que estes livros não circulam entre as Escrituras canônicas?

M. Porque entre os Hebreus também eram recebidos com base nesta distinção, como Jerônimo e os outros atestam.

D. Nulla in his libris alia species invenitur?

M. Incedunt caeterae, sed non principaliter: quia etsi personae a quibus sunt primum, secundum caeteras species sunt locutae; tamen ab eo qui librum scripsit, ut historia sunt relata. Sicut benedictiones Jacob partriarchae, ab ipso quidem propheta dictae sunt: sed Moyses qui refert, ordine narrat historico. Et cum ipse Moyses dicit: In principio factum coelum et terram (Gen. I, 1); prophetico quicem dict spiritu, sed specie narrat historica. Similiter et proverbialiter nonnunquam sonat historia, ut est: Ambulantia ambulaverunt ligna, ungere super se regem (Jud. IX, 8). Aliquando simpliciter doct, id est: Audi, Israel, Dominus Deus tuus, Deus unus est (Deut. VI, 4). Omnia tamen, ut dixi, specie contexuntur historica.

D. Nenhum outro gênero é encontrado nestes livros?

M. Os outros ocorrem, mas não predominantemente, porque, embora as coisas tenham sido ditas primeiro por pessoas que falaram de acordo com os outros gêneros, todavia, foram relatadas como história por quem escreveu o livro. Assim como as bênçãos do patriarca Jacó foram, de fato, ditas pelo próprio profeta: mas Moisés, que as relata, narra em ordem histórica. E quando o próprio Moisés diz: «No princípio foram feitos o céu e a terra» (Gn 1, 1); ele está, na verdade, falando com espírito profético, mas narrando no gênero histórico. Do mesmo modo, também, a história soa por vezes de maneira proverbial, tal como: «Árvores ambulantes foram ungir um rei sobre elas» (Jz 9, 8). Algumas vezes, ensina de maneira direta, a saber: «Ouve, Israel: o Senhor teu Deus é o único Senhor» (Dt 6, 4). Todas as coisas, contudo, como disse, estão entrelaçadas com o gênero histórico.

D. Quid historica speciebus caeteria praestat?

M. Quod ipsi caeterae subjacent: Ipsa, nulli.

D. Por que o gênero histórico é superior aos outros?

M. Porque a ele os outros estão subordinados; ele mesmo, a nenhum.

D. Quid illi commune cum caeteris?

M. Habet commune cum simplici doctrina, quod utraque superficie planae videntur, cum sint intellectu plerumque diffilices: nam aliae contra.

D. O que há nele em comum com os outros gêneros?

M. Tem em comum com a doutrina simples o fato de ambos parecerem evidentes na superfície, embora geralmente sejam difíceis de entender; quanto às outras, ocorre exatamente o contrário.

CAPUT IV

De prophetia

CAPÍTULO IV

Sobre a Profecia

D. Quid est prophetia?

M. Rerum latentium, praeteritarum, aut praesentium, aut futurarum, ex divina inspiratione manifestatio.

D. O que é profecia?

M. É a manifestação, por inspiração divina, das coisas ocultas, passadas, presentes ou futuras.

D. Da in praeteritis prophetiam.

M. Verbo Domini coeli firmati sunt (Psal. XXXII, 6). Et: Quoniam ipse dixit, et facta sunt (Psal. CXLVIII, 5). Et: In principio fecit Deus coelum et terram (Gen. I, 1).

D. Dá um exemplo de profecia no passado.

M. «Pela palavra do Senhor foram firmados os céus» (Sl 32, 6). E: «Porque ele ordenou e foram criados» (Sl 148, 5). E: «No princípio, criou Deus o céu e a terra» (Gn 1, 1).

D. Da in praesentibus.

M. Cognitionem futuri facti Giezi propheta in praesenti vidit (IV Reg. V, 26): et Ananiae ac Saphirae, Petrus apostolus (Act. V, 1-10).

D. Dá no presente.

M. O profeta teve, no presente, a percepção de uma ação futura de Giezi (2Rs 5, 26), e o Apóstolo Pedro, de Ananias e Safira (At 5, 3).

D. Da in futurus.

M. Ecce virgo accipiet in utero (Isa. VII, 14), etc.

D. Dá no futuro.

M. Eis que a virgem conceberá em seu útero (Is 7, 14), etc.

D. Quare in definitione positum est latentium?

M. Quia si quis jam cognita dicat, licet et futura sint, tamen propheta non est: sicut nos, cum resurrectinem praedicamus, prophetae non sumus. Si vero cujuscunque temporis latentia manifestat, tunc propheta est, sicut jam ostendimus.

D. Por que na definição se emprega a expressão «das coisas ocultas»?

M. Porque se alguém diz coisas já conhecidas, ainda que sejam futuras, não é, contudo, um profeta; assim como, quando pregamos a ressurreição, não somos profetas. Se, na verdade, manifesta coisas ocultas de qualquer tempo, então é um profeta, como já mostramos.

D. Proba hoc.

M. Apostoli testimonio, in Epistola ad Corinthios, qui ait: Si convenerit universa Ecclesia in unum, et linguis loquantur omnes, intrent autem idiotae, intret autem infidelis aut idiota, convincitur ab omnibus, interrogatur ab omnibus, occulta etiam cordis ejus manifesta erunt: et tunc eudens in faciem, adorabit Deum, annuntians quod manifeste Deus in vobis est (I Cor. XIV, 23-25). Ecce Apostolus prophetiae vim in occultorum manifestatione signavit. Sed et sequentia in eadem Epistola et caeteris, multa sunt talia.

D. Prova isso.

M. Pelo testemunho do Apóstolo, na Epístola aos Coríntios, que diz: «Se a Igreja se reunir e todos falarem em línguas, os simples que entrarem não dirão que estais loucos? Se, ao contrário, todos profetizarem, e entrar um incrédulo ou simples, por todos é convencido, por todos é julgado; até os segredos do seu coração serão revelados; então, prostrando-se com o rosto em terra, adorará a Deus, proclamando que Deus está realmente no meio de vós» (1Co 14, 23-24). Eis que o Apóstolo assinalou a força da profecia na revelação das coisas ocultas. Mas há também muitas passagens semelhantes que se seguem na mesma epístola e nas demais.

D. Quare addidimus: Ex divina inspiratione?

M. Quia illi que aut daemonum instinctu, aut aliis modis latentia dicunt, licet prophetae dici possunt, tamen divinarum Scripturarum non numerantur auctores.

D. Por que adicionamos: Por inspiração divina?

M. Porque aqueles que, ou por instigação de espíritos ou por outros modos, dizem coisas ocultas, embora possam ser chamados de profetas, contudo não estão enumerados entre os autores das divinas Escrituras.

D. In quibus libris prophetia suscipitur?

M. In septemdecim: Psalmorum CL lib, 1, Osee lib. 1, Isaiae lib. 1, Joel lib. 1, Amos lib. 1, Abdiae lib. 1, Jonae lib. 1, Michaeae lib. 1, Nahum lib. 1, Sophoniae lib. 1, Habacuc lib. 1, Jeremiae lib. 1, Ezechiel lib. 1, Daniel lib. 1, Aggaei lib. 1, Zachariae lib. 1, Malachiae lib. 1. Caeterum de Joannis Apocalypsi apud Orientales admodum dubitatur.

D. Em quais livros a profecia é recebida?

M. Em dezessete: os 150 Salmos, 1 livro; Oseias, 1 livro; Isaías, 1 livro; Joel, 1 livro; Amós, 1 livro; Abdias, 1 livro; Jonas, 1 livro; Miqueias, 1 livro; Naum, 1 livro; Sofonias, 1 livro; Habacuc, 1 livro; Ezequiel, 1 livro; Daniel, 1 livro; Ageu, 1 livro; Zacarias, 1 livro; Malaquias, 1 livro. Além disso, há muitas dúvidas acerca do Apocalipse de João entre os Orientais.

D. Nulla in his libris alia species invenitur?

M. Accedunt caetera; sed non principaliter, nisi ad probationem prophetiae: sicut in Isaia (cap. VII, XXXI, XXXVIII), Achaz et Ezechiae regum velut quaedam refertur historia; sed prophetiae intentio est, non gesta contenxere, sed praedictorum exitum comprobatore. Jeremias cum dicit: Terra, terra, audi verbum Domini (Jer. XXII, 29), terram, proverbialiter, habitantes in ea homines nuncupa. Et cum Isaias dicit: Non tale jejunium elegi, dicit Dominus: sed solve omnem nodum iniquitatis (Isa. LVIII, 5-6), etc., velut simpliciter docet, sed ut prophetico spiritu jussus haec praedicat.

D. Nenhum outro gênero é encontrado nestes livros?

M. Os outros ocorrem, mas não predominantemente, senão para a comprovação da profecia: assim como em Isaías (cap. 7, 31 e 37) é relatada uma espécie de história, por assim dizer, dos reis Acaz e Ezequias. Mas o propósito da profecia não é narrar feitos notáveis, e sim confirmar o resultado das predições. Quando Jeremias diz: «Terra, terra, escuta a palavra do Senhor» (Jr 22, 29), nomeia «terra», proverbialmente, os homens que habitam nela. E quando Isaías diz: «Não escolhi semelhante jejum, diz o Senhor, mas: rompe todo grilhão da iniquidade» (Is 58, 5-6), etc., está, por assim dizer, apenas ensinando, mas proclama estas coisas como ordenado pelo espírito profético.

D. Quid prophetiae commune cum caeteris?

M. Habet commune cum Proverbiis quod utraque superficie difficilia sunt, sed pleraque intellectu non ardua.

D. O que a profecia tem em comum com os outros gêneros?

M. Tem em comum com os Provérbios o fato de ambos serem difíceis na superfície, mas geralmente não é complicado de entender.

CAPUT V

De Proverbiis

CAPÍTULO V

Sobre os Provérbios

D. Quae est proverbialis species?

M. Quaedam figurata locutio, aliud sonans, aliud sentiens, et in praesenti commonens tempore.

D. O que é o gênero proverbial?

M. Uma certa locução figurada que soa uma coisa, pressupõe outra e adverte no tempo presente.

D. In quibus haec libris accipitur?

M. In duobus: Salomonis Proverbiorum lib. 1, et Jesu filii Sirach lib. 1.

D. Em quais livros este gênero é encontrado?

M. Em dois: Provérbios de Salomão, 1 livro; e Jesus, filho de Sirac, 1 livro.

D. Nullus alius liber huic specici subditur?

M. Adjungunt quidam librum qui vocatur Sapientiae, et Cantica canticorum.

D. Nenhum outro livro é submetido a este gênero?

M. Alguns acrescentam o livro que é chamado de Sabedoria, e Cânticos dos cânticos.

D. Accijuntne his libris aliae species?

M. Sola simplex doctrina accidit, sed non principaliter, nisi ad explanationem vel commuendationem Proverbiorum: ut, Initium sapientiae timor Domini (Prov. I, 7; IX, 10).

D. Ocorrem outros gêneros nestes livros?

M. Ocorre somente a doutrina simples, mas não predominantemente, a não ser para explanação ou recomendação de provérbios, como: «O temor do Senhor é o princípio da sabedoria» (Pr 1, 7; 9, 10).

D. Quid Proverbiis commune cum caeteris?

M. Habet cum prophetia commune, quod superficie difficilis videtur, cum intelectu plerumque non sit.

D. O que tem em comum com os outros gêneros?

M. Tem em comum com a profecia o fato de parecer difícil na superfície, embora geralmente não seja para o intelecto.

D. Quid habet proverbialis species proprium?

M. Quod ei neque historia, neque prophetia miscentur; et sola est quae ita intelligitur, ut quodammodo verborum superficies auferatur.

D. O que o gênero proverbial tem de particular?

M. O fato de nem a história, nem a profecia estarem misturados a ele; e é o único que se compreende desta forma, de tal sorte que a superfície das palavras é de algum modo deixada de lado.

D. Quare in hoc tantum licitum nobis est, non textum Scripturae ipsius considerare, sed sensum, cuum in caeteris tribus ita allegoris mysticas admittamus, ut narrationis fidem praesentare necesse sit?

M. Quia si voluerimus proverbialem speciem ubique allegoriam sic recipere, ut anrrationis veritas infirmetur, locum damus inimicis, prout voluerint, divinos livros interpretandi.

D. Por que apenas neste gênero nos é lícito considerar, não o texto da própria Escritura, mas o sentido, visto que nos outros três admitimos de tal maneira as alegorias místicas que é necessário apresentar a confiabilidade da narração?

M. Porque se quisermos em toda parte admitir o gênero proverbial como alegoria, de tal modo que a verdade da narração é enfraquecida, damos ensejo aos inimigos para interpretarem os livros divinos como desejarem.

D. Quot modis in divina lege allegoria congnoscitur?

M. Quatuor: aut secundum translationem vel metaphoram, ut est: Iratus est Dominus, et descendit (Exod. IV, 14), et similia quae ad insinuandas causas ex humanis moribus transferuntur ad Deum; aut secundum imaginationem vel hypotyposin, ut est in Evangelio: Homo quidam descendebat ab Jerusalem in Jericho (Luc. X, 30); et rursus parabola vincae atque agricolarum (Math. XX, XXI). Ordo enim eorum quae gerebantur a Christo, velut imagine personae et negotii alterius refertur impletus. Aut secundum comparationem vel similitudinem, sicut dicit: Simile est regnum coelorum grano sinapis (Luc. XIII, 19), etc. Non enim narratio, sicut in superiore exemplo contexitur, sed causarum solummodo comparantur effecius. Aut secundum proverbialem modum, ut est: Bibe aquam de tuis vasis, et de cisterna tua, et de tuis puteis (Prov. V, 15), cum velit Scriptura innuere, carnalem concupiscentiam intra licentiam conjugii refrenandam.

D. De quantos modos se reconhece a alegoria na lei divina?

M. Quatro: segundo a transferência ou a metáfora, tal como: «Irou-se o Senhor e desceu» (Ex 4, 14), e coisas semelhantes que, para introduzir as causas dos costumes humanos, são transferidas a Deus. Ou segundo a imaginação ou a hipotipose, como está no Evangelho: «Um homem descia de Jerusalém para Jericó» (Lc 10, 30); e novamente, a parábola da vinha e dos agricultores (Mt 20, 1-16; 21, 33-46). Pois a ordem das coisas que eram realizadas por Cristo é apresentada como cumprida pela imagem de uma outra pessoa e de um outro assunto. Ou segundo a comparação ou similitude, como diz: «O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda» (Lc 13, 19), etc. A narração, de fato, não está sendo composta, como no exemplo anterior, mas somente os efeitos das causas são analisados. Ou segundo o modo proverbial, tal como: «Bebe água de teus vasos, de tua cisterna, e de teus poços» (Pr 5, 15), visto que a Escritura deseja indicar que a concupiscência carnal deve ser contida dentro da licença do casamento.

CAPUT VI

De simplici doctrina

CAPÍTULO VI

Sobre a doutrina simples

D. Quae est simplex doctrina?

M. Qua, de fide aut de moribus in praesenti tempore simpliciter docemur.

D. O que é a doutrina simples?

M. É o gênero pelo qual somos instruídos acerca da fé ou dos costumes no tempo presente.

D. Quare hoc nomen accepit?

M. Quia omnis quidem Scriptura aliquid docet, sed sub aliis speciebus quas supra diximus; sub quibus aliud etiam agitur. Haec autem neque historiam texit, neque prophetiam, neque proverbialiter loquitur; sed tantummodo simpliciter docet.

D. Por que recebeu este nome?

M. Porque, certamente, toda a Escritura ensina algo, mas sob outros gêneros que mencionamos acima; sob os quais também se trata de outra coisa. Este gênero não compõe nem história, nem profecia, nem se exprime proverbialmente; mas apenas ensina de maneira simples.

D. Qui libri ad simplicem doctrina pertinent?

M. Canonici sexdecim; id est, Eccles. lib. 1. Et Epist. Pauli Apostoli ad Rom. 1, ad Corinth. 2, ad Gal. 1, ad Ephes. 1, ad Philip. 1, ad Coloss. 1, ad Thessal. 2, ad Timoth. 2, ad Titum 1, ad Philem. 1, ad Heb. 1; Beati Petri ad Gentes 1, et Beati Joannis prima.

D. Quais livros pertencem à doutrina simples?

M. Dezesseis canônicos, isto é, Eclesiastes, 1 livro; e as Epístolas do Apóstolo Paulo: aos Romanos, 1; aos Coríntios, 2; aos Gálatas, 1; aos Efésios, 1; aos Filipenses, 1; aos Colossenses, 1; aos Tessalonicenses, 2; a Timóteo, 2; a Tito, 1; a Filêmon, 1; aos Hebreus, 1; do Bem-aventurado Pedro aos gentios, 1; e a primeira do Bem-aventurado João.

D. Nulli alii libri ad simplicem doctrinam petinent?

M. Adjungunt quamplurimi quinque alias quae Apostolorum Canonicae nuncupantur: id est, Jacobi 1, Petri secundam, Judae unam, Joannnis duas.

D. Nenhum outro livro pertence à doutrina simples?

M. Muitíssimos acrescentam outras cinco que são chamadas de Canônicas dos Apóstolos, isto é: de Tiago 1, de Pedro a segunda, de Judas uma, de João duas.

D. Nulla in his libris alia species invenitur?

M. Accedunt caeterae, sed non principaliter, nisi ad probationem doctrinae. Nam cum dicit Apostolus: Et dum venissem Troadem, in Evangelio Christi ostium mihi apertum est (II Cor. II, 12); et ubi Petro dicitur in faciem restitisse, velut historiam videtur texere. Rursus cum dicit: Ecce musterium vobis dico: Omnes quidem resurgemus, sed non omnes immutabimur (I Cor. XV, 51), prophetae opus aggreditur. Cum ait: Cretenses semper mendaces, malae bestiae, ventres pigri (Tit. I, 12), proverbialibus utitur verbis: omnis tamen ad doctrinae probationem, ut diximus, inseruntur.

D. Nenhum outro gênero é encontrado nestes livros?

M. Os outros ocorrem, mas não predominantemente, a não ser para a comprovação da doutrina. Pois, quando o Apóstolo diz: «E, uma vez que tinha chegado a Trôade, no tocante ao Evangelho de Cristo, uma porta foi aberta para mim» (2Co 2, 12); e onde se diz que ele resistiu a Pedro na cara, parece que está tecendo, por assim dizer, uma história. Novamente, quando diz: «Eis que vos digo um mistério: Na verdade, todos ressuscitaremos, mas nem todos seremos transformados» (1Co 15, 51), desempenha a obra de um profeta. Quando afirma: «Os cretenses são sempre mentirosos, animais ferozes, ventres preguiçosos» (Tt 1, 12), utiliza palavras proverbiais. Entretanto, como mencionamos, tudo é inserido para a comprovação da doutrina.

D. Quid commune cum caeteris speciebus simplex doctrina habet?

M. Habet cum historia commune, quod utraque, superficie faciles videntur, cum sint inspectione aut intellectu plerumque difficiles.

D. O que a doutrina simples tem em comum com os outros gêneros?

M. Tem em comum com a história, porque ambas parecem fáceis na superfície, embora sejam geralmente difíceis de examinar ou entender.

CAPUT VII

De auctoritate Scripturarum

CAPÍTULO VII

Sobre a autoridade das Escrituras

D. Quomodo divinorum Librorum consideratur auctoritas?

M. Quia quidam perfectae auctoritatis. Quinam libri in Scripturae canonem admittendi essent, nondum erat explicite quam nunc ab Ecclesia constitutum sunt, quidam mediae, quidam nullius.

D. Como se considera a autoridade dos Livros divinos?

M. Que alguns possuem autoridade perfeita, outros possuem autoridade intermediária, outros não possuem autoridade alguma.

D. Qui sunt perfectae auctoritatis?

M. Quos Canonicos in singulis speciebus absolute enumeravimus.

D. Quais livros possuem autoridade perfeita?

M. Aqueles que, de um modo geral, enumeramos como canônicos em cada gênero.

D. Qui mediae?

M. Quos adjungi a pluribus diximus.

D. Quais livros possuem autoridade intermediária?

M. Aqueles que dissemos que são adicionados por um grande número de pessoas.

D. Qui nullius auctoritatis sunt?

M. Reliqui omnes.

D. Quais livros não têm autoridade alguma?

M. Todos os demais.

D. In omnibus speciebus hae differentiae inveniuntur?

M. In historia et simplici doctrina: omnes namque in prophetia mediae auctoritatis libri, non praeter Apocalysin reperiuntur: neque in proverbiali specie omnino cessata.

D. Estas diferenças são encontradas em todos os gêneros?

M. Na história e na doutrina simples. E a este respeito, os livros de autoridade intermediária em geral não são encontrados na profecia, com exceção de Apocalipse, nem totalmente anulados no gênero proverbial.

CAPUT VIII

De Scriptoribus divinorum Librorum

CAPÍTULO VIII

Sobre os autores dos Livros divinos

D. Scriptores divinorum Librorum qua ratione cognoscimus?

M. Tribus modis. Aut ex titulis et prooemiis, ut Propheticos Libros, et Apostolorum Epistolas; aut ex titulis tantum, ut Evangelistas: aut ex traditione veterum, ut Moyses creditur scripsisse quinque primos libros historiae; cum non dicat hoc titulus, nec ipse referat, Dixit Dominus ad me: sed quasi de alio, Dixit Dominus ad Moyses. Similiter et Jesu Nave liber, ab eo quo nuncupatur, traditur scriptus. Et primum librum Regnum Samuel scripsisse perhibetur. Sciendum praeterea quod quorundam Librorum penitus ignorantur auctores, ut est Judicum, et Ruth, et Regum III et ultimus, et caetera similia: quod ideo credendum est divinitus dispensatum, ut alii quoque divini Libri non auctorum merito, sed sancti Spiritus gratia tantum culmen auctoritatis obtinuisse noscantur.

D. De que maneira reconhecemos os autores dos Livros divinos?

M. De três modos. Ou pelos títulos e proêmios, como os livros proféticos e as epístolas dos Apóstolos; ou somente pelos títulos, como os Evangelistas: ou pela tradição dos antigos, como se crê que Moisés escreveu os cinco primeiros livros da história; embora o título não diga isso, nem ele próprio afirme «O Senhor me disse», mas, como se falasse de outro: «Disse o Senhor a Moisés». Da mesma forma, o livro de Jesus Nave, conta-se que foi escrito por aquele de quem se toma o nome. E afirma-se que Samuel escreveu o Primeiro Livro dos Reis. Além disso, deve-se notar que os autores de alguns livros são completamente desconhecidos, tais como Juízes, Rute, o terceiro e o último dos Reis, e outros semelhantes. Deve-se crer que isto foi divinamente disposto com o propósito de outros livros divinos também serem reconhecidos por terem obtido tão elevado cume de autoridade não pelo mérito de seus autores, mas pela graça do Espírito Santo.

CAPUT IX

De modis Scripturarum

CAPÍTULO IX

Sobre os modos das Escrituras

D. Modi divinae Scripturae quot?

M. Duo: nam aut metris Hebraicis in sua lingua conscribuntur, aut oratione simplici.

D. Quantos são os modos da divina Escritura?

M. Dois: pois ou foram compostos em metros hebraicos em sua língua, ou em prosa simples.

D. Quae sunt metris conscripta?

M. Ut Psalmi, et Job historia, et Ecclesiastes, et in Prophetia quaedam.

D. Quais foram compostos em metros?

M. Como os Salmos, a história de Jó, Eclesiastes e algumas partes nos Profetas.

D. Quae simplici oratione conscripta sunt?

M. Reliqua omnia.

D. Quais foram compostos em prosa simples?

M. Todos os outros.

D. Quare apud nos iisdem metris conscripta non sunt?

M. Quia nulla dictio metrum in alia lingua conservat, si vim verborum ordinemque non mutet.

D. Por que entre nós não foram compostos com os mesmos metros.

M. Porque nenhuma expressão conserva o metro em outra língua, se mudar a força e a ordem das palavras.

CAPUT X

De ordine Scripturarum

CAPÍTULO X

Sobre a ordem das Escrituras

D. Quis est ordo divinorum voluminum?

M. Quia quaedam Veteris Testamenti, quedam Novi.

D. Qual é a ordem dos volumes divinos?

M. Alguns são do Antigo Testamento, outros do Novo.

D. Quae ad Novum Testamentum pertinent?

M. Evangelia (ut supra dictum est) quatuor, Apostolicae Epistolae, et Actus.

D. Quais pertencem ao Novo Testamento?

M. Os quatro Evangelhos (como dito acima), as Epístolas Apostólicas e Atos.

D. Quae ad Vetus Testamentum pertinent?

M. Reliqua omnia.

D. Quais pertencem ao Antigo Testamento?

M. Todos os outros.

D. Quae Testamenti Veretis Novique sunt propria?

M. Veteris intentio est, Novum figuris denuntiationibusque monstrare: Novi autem, ad aeternae beatitudinis gloriam humanas mentes accendere.

D. O que é próprio do Antigo e do Novo Testamento?

M. O propósito do Antigo é apresentar o Novo por meio de figuras e anúncios, o do Novo, por outro lado, é despertar as mentes humanas para a glória da eterna beatitude.


FONTE

JUNILII, De Partibus Divinae Legis. In: J. P. MIGNE, Patrologia Latina, Tomus LXVIII, Paris: Petit-Montrouge, 1847. p. 15-26.

__________________________________. In: B. F. WESTCOTT, A General Survey of the History of the Canon of the New Testament, Londres, 1866, Apêndice D, p. 536-537.

__________________________________. In: KIHN, Heinrich, Theodor von Mopsuestia und Junilius Africanus als Exegeten. Nebst einer kritischen Textausgabe von des letzteren Instituta regularia divinae legis. Freiburg im Breisgau, ed. 1880, p.

__________________________________. In: MAAS, Michael, Exegesis and Empire in the Early Byzantine Mediterranean. Junillus Africanus and the Instituta Regularia Divinae Legis, Tübingen, 2003, p. 126-146.