GLOSSA ORDINARIA

De canonicis et non canonicis libris

Sobre os livros canônicos e não canônicos

Quoniam plerique eo quod non multam operam dant sacrae Scripturae, existimant omnes libros qui in Bibliis continentur, pari veneratione esse reverendos atque adorandos, nescientes distinguere inter libros canonicos, et non canonicos, quos Hebraei a canone separant, et Graeci inter apocrypha computant; unde sæpe coram doctis ridiculi videntur, et perturbantur, scandalizanturque cum audiunt aliquem non pari cum caeteris omnibus veneratione prosequi aliquid quod in Bibliis legatur: idcirco hic distinximus, et distincte numeravimus primo libros canonicos, et postea non canonicos, inter quos tantum distat quantum inter certum et dubium. Nam canonici sunt confecti Spiritus santo dictante non canonici autem sive apocryphi, nescitur quo tempore quibusve auctoribus sint editi; quia tamen valde boni et utiles sunt, nihilque in eis quod canonicis obviet, invenitur, ideo Ecclesia eos legit, et permittit, ut ad devotionem, et ad morum informationem a fidelibus legantur. Eorum tamen auctoritas ad probandum ea quae veniunt in dubium, aut in contentionem, et ad confirmandam ecclesiasticorum dogmatum auctoritatem, non reputatur idonea, ut ait beatus Hieronymus in prologis super Judith et super libris Salomonis. At libri canonici tantae sunt auctoritatis, ut quidquid ibi continetur, verum teneat firmiter et indiscusse: et per consequens illud quod ex hoc concluditur manifeste; nam sicut in philosophia veritas cognoscitur per reductionem ad prima principia per se nota: ita et in Scripturis a sanctis doctoribus traditis veritas cognoscitur, quantum ad ea quae sunt fide tenenda, per reductinem ad Scripturas canonicas, quae sunt habita divina revelatione, cui nullo modo podest falsum subesse. Unde de his dicit Augustinus ad Hieronymum: «Ego solis eis scriptoribus qui canonici appellantur, didici hunc timorem honoremque deferre, ut nullum eorum scribendo errasse firmissime teneam; ac si aliquid in eis offendero quod videatur contrarium veritati, nihil aliud existimem quam mendosum esse codicem, vel non esse assecutum interpretem quod dictum est, vel me minime intellexisse, non ambigam. Alios, autem ita lego, ut quantalibet sanctitate doctrinave polleant, non ideo verum putem quia ipsi ita senserunt, sed quia mihi per illos auctores canonicos vel probabiles rationes, quod a vero non abhorreat, persuadere potuerunt.»

Visto que muitos, por não darem muita atenção à Sagrada Escritura, julgam que todos os livros contidos na Bíblia devem ser reverenciados e adorados com igual veneração, não sabendo distinguir entre os livros canônicos e os não canônicos, que os hebreus separam do cânon e os gregos computam entre os apócrifos; donde frequentemente parecem ridículos diante dos doutos, e ficam perturbados e escandalizados quando ouvem que alguém não honra com igual veneração algo que é lido na Bíblia. Por esta razão, aqui distinguimos e enumeramos separadamente em primeiro lugar os livros canônicos e depois os não canônicos, entre os quais há tanta diferença quanto entre o certo e o duvidoso. Pois os canônicos foram compostos sob o ditame do Espírito Santo; não se sabe, porém, em que tempo ou por quais autores os não canônicos ou apócrifos foram publicados. No entanto, por serem muito bons e úteis, e nada se encontrar neles que se oponha aos canônicos, a Igreja os lê e permite que sejam lidos pelos fiéis para a devoção e para a formação moral. Sua autoridade, contudo, para provar o que é posto em dúvida, ou em disputa, e para confirmar a autoridade dos dogmas eclesiásticos não é considerada idônea, como sustenta o bem-aventurado Jerônimo nos prólogos sobre Judite e sobre os livros de Salomão. Mas os livros canônicos são de tal autoridade, que tudo o que ali está contido preservaria a verdade de maneira firme e incontestável, e, por consequência, aquilo que se conclui a partir disto de forma manifesta; pois como na filosofia a verdade é conhecida pela redução aos primeiros princípios evidentes por si mesmos, assim também, nas Escrituras transmitidas pelos santos doutores, a verdade é conhecida, quanto às coisas que devem ser mantidas pela fé, por redução às Escrituras canônicas, que foram proferidas por divina revelação, na qual de modo algum o erro pode estar presente. Donde, acerca destas, disse Agostinho a Jerônimo: «Somente aos escritores que são chamados canônicos eu aprendi a conceder este temor e honra, de tal modo que mantenho mais firmemente que nenhum deles cometeu qualquer erro ao escrever. Mas se tiver encontrado algo neles que pareça contrário à verdade, julgaria que nada mais é do que um códice defeituoso, ou que o tradutor não compreendeu o que foi dito, ou que eu mesmo não entendi nada, não duvidaria. Os outros, porém, leio-os de tal modo que, por mais que sobressaiam em santidade ou doutrina, não considero algo como verdadeiro porque eles assim pensaram, mas porque puderam me persuadir por meio dos autores canônicos ou por meio de argumentos prováveis de que sua opinião não se apartaria da verdade.»

Sunt igitur libri canonici Veteris Testamenti viginti duo, ad numerum viginti duarum litterarum Hebræorum, ut scribere Origenem super primum psalmum refert Eusebius libro sexto Ecclesiasticæ Historiæ, et copiosius distinctiusque dicit beatus Hieronymus in prologo gaelato super librum Regnum, quod omnes in tres partes ab Hebræis dividuntur: In Legem, id est quinque libros Moysis; in prophetas octo, et hagiographa novem; ut statim clarius patebit, quamvis nonnulli librum Ruth separent a libro Judicum, et Lamentationes Jeremiæ a Jeremia, et inter Hagiographa computent, ut sint viginti quatuor libri ad numerum viginti quatuor seniorum quos Apocalypsis inducit adorantes Agnum (Apoc. v).

Há, portanto, vinte e dois livros canônicos do Antigo Testamento, segundo o número das letras hebraicas, como relata Eusébio, no sexto livro da História Eclesiástica, que Orígenes escreve sobre o primeiro Salmo, e mais abundante e distintamente diz o bem-aventurado Jerônimo em seu Prólogo Galeato sobre o livro dos Reis que todos são divididos em três partes pelos hebreus: na Lei, isto é, nos cinco livros de Moisés; nos oito profetas e nos nove hagiógrafos; como logo ficará mais claramente exposto, ainda que alguns separem o livro de Rute do livro de Juízes e Lamentações de Jeremias de Jeremias, e os computem entre os Hagiógrafos, para que haja vinte e quatro livros segundo o número dos vinte e quatro anciãos que o Apocalipse apresenta adorando o Cordeiro (Ap 5).

Isti sunt libri que sunt in canone, ut latius scribit beatus Hieronymyus in prologo galeato qui est super libros Regum. Et primo quinque libri Moysi, qui appellantur lex, quorum primus est Genesis, secundus Exodus, tertius Leviticus, quartus Numeri, quintus Deuteronomium. Secundo sequuntur octo libri prophetales, quorum primus est Josue, secundus liber Judicum cum Ruth, tertius Samuel, id est primus et secundus Regum, quartus Malachim, id est, tertius et quartus Regnum; quintus Isaias, sextus Jeremias cum Lamentationibus, septimus Ezechiel, octavus liber duodecim prophetarum: quorum primus est Osee, secundus Joel, tertius Amos, quartus Adbias, quintus Jonas, sextus Michæas, septimus Nahum, octavus Habacuc, nonus Sophonias, decimus Aggæus, undecimus Zacharias, duodecimus Malachias. Tertio sequuntur Hagiographa novem, quorum primus est Job, secundus Psalterium, tertius Salomonis Proverbia, quartus ejusdem Ecclesiastes, quintus ejusdem Canticorum, sextus Daniel, septimus Paralipomenon, qui apud Hebræos est unus liber, non duo; octavus Esdras cum Nehemia (est enim totus unus liber), nonus Esther. Quidquid autem extra hos est (de Veteri Testamento loquor) ut dicit Hieronymus, inter apocrypha est ponendum.

Estes são os livros que estão no cânon, como escreve mais amplamente o bem-aventurado Jerônimo no Prólogo Galeato que encabeça os livros dos Reis. E em primeiro lugar estão os cinco livros de Moisés, que são chamados Lei, dos quais o primeiro é Gênesis, o segundo Êxodo, o terceiro Levítico, o quarto Números, o quinto Deuteronômio. Em segundo lugar seguem-se oito livros proféticos, dos quais o primeiro é Josué, o segundo o livro de Juízes junto com Rute, o terceiro Samuel, isto é, o Primeiro e o Segundo Livro dos Reis, o quarto Malachim, isto é, o Terceiro e o Quarto Livro dos Reis; o quinto Isaías, o sexto Jeremias junto com Lamentações, o sétimo Ezequiel, o oitavo o livro dos doze profetas: dos quais o primeiro é Oséias, o segundo Joel, o terceiro Amós, o quarto Abdias, o quinto Jonas, o sexto Miquéias, o sétimo Naum, o oitavo Habacuc, o nono Sofonias, o décimo Ageu, o décimo primeiro Zacarias, o décimo segundo Malaquias. Em terceiro lugar seguem-se os nove hagiógrafos, dos quais o primeiro é Jó, o segundo o Saltério, o terceiro Provérbios de Salomão, o quarto Eclesiastes, o quinto o Cântico dos Cânticos, o sexto Daniel, o sétimo Paralipômenos, que entre os hebreus é um único livro, não dois; o oitavo Esdras com Neemias (é, pois, em seu conjunto, um único livro), o nono Ester. Qualquer coisa, porém, que esteja fora destes (falo a respeito do Antigo Testamento), como diz Jerônimo, deve ser colocado entre os apócrifos.

Isti sunt libri qui non sunt in canone, quos tamen Ecclesia ut bonos et utiles admittit, non ut canonicos, inter quos sunt aliqui majoris auctoritatis, aliqui minoris. Nam Tobias, Judith, et Machabæorum libri, Sapientiæ quoque liber atque Ecclesiasticus, valde ab omnibus probantur; ita quod Augustinus libro de doctrina Christiana (lib. II, cap. 8) tres superiores numerat inter canonicos, et de Sapientia atque Ecclesiastico dicit, meruisse illos recipi in auctoritatem, et inter propheticos debere numerari. Et de libris Machabæorum libro decimo octavo (Cap. 31) de Civitate Dei loquens, et de Esdræ libris dicit quod quamvis Hebræi non habeant eos pro canonicis, tamen Ecclesia habet illos pro canonicis propter quorumdam martyrum passiones vehementes atque mirabiles. Minoris autem auctoritatis sunt Baruch, et tertius et quartus Esdræ: nam Augustinus in loco supradicto nullam de his facit mentionem, cum tamen, ut dixi, alios apocryphos canonicis annumerat. Rufinus quoque in expositione Symboli, et Isidorus in libro sexto Etymologiarum, ubi hanc Hieronymi divisionem referunt, horum nihil meminerunt. Et ut numeres eos eo ordine quo sunt in Bibliis, quamvis alio ordine fuerint editi, primo sunt tertius et quartus libri Esdræ, qui dicuntur tertius et quartus; quia ante Hieronymum Græci et Latini librum Esdræ canonicum secabant in duo libros, sermones Nehemiæ, secundum librum appellantes. Isti autem tertius et quartus inter omnes, non canonicos minoris, ut dixi, sunt auctoritatis. Unde Hieronymus in prologo Esdræ eos appellat somnia, et in paucissimis Bibliis manuscriptis inveniuntur, et in multis impressis invenitur solum tertius. Secundus est Tobias, liber valde devotus et utilis. Tertius est Judith, quem dicit Hieronymus in prologo fuisse a Nicæna synodo computatum in numero sanctarum Scripturarum. Quartus liber Sapientiæ, quem scripsisse Philonem Alexandrinum Judæum doctissimum, fere omnes tenent. Quintus est liber Jesu filii Sirach, qui Ecclesiasticus dicitur. Sextus est Baruch, ut dicit Hieronymus in prologo Jeremiæ. Septimus est Machabæorum liber, in primum et secundum divisus.

Estes são os livros que não estão no cânon, que, todavia, a Igreja admite como bons e úteis, não como canônicos, entre estes estão alguns de maior autoridade, outros de menor. De fato, Tobias, Judite e os livros dos Macabeus, também o livro de Sabedoria e o Eclesiástico, são muito apreciados por todos; de modo que Agostinho, no livro A Doutrina Cristã, enumera os três primeiros entre os canônicos e, a respeito de Sabedoria e Eclesiástico, diz que eles mereceram ser recebidos como autoridade e devem ser enumerados entre os proféticos. E, falando acerca dos livros dos Macabeus, no décimo oitavo livro de «A Cidade de Deus», e acerca dos livros de Esdras, diz que, embora os hebreus não considerem os primeiros como canônicos, a Igreja, contudo, os considera como canônicos por causa das paixões intensas e admiráveis de certos mártires. De menor autoridade são Baruc, e terceiro e quarto de Esdras. De fato, Agostinho não faz nenhuma menção deles no lugar supracitado, entretanto, como eu disse, ele inclui outros apócrifos no número dos canônicos. Rufino também, em sua exposição do Símbolo, e Isidoro, no sexto livro das Etimologias, onde reproduzem esta divisão de Jerônimo, nenhuma menção fazem destes livros. E, para que os enumeres na ordem em que estão na Bíblia, ainda que tenham sido publicados em uma ordem diferente, em primeiro lugar estão o terceiro e quarto livros de Esdras. Estes são chamados de terceiro e quatro, porque, antes de Jerônimo, os gregos e os latinos costumavam dividir o livro canônico de Esdras em dois livros, chamando o segundo livro de Palavras de Neemias. Estes terceiro e quarto, entre todos, como eu disse, são os não canônicos de menor autoridade. Donde Jerônimo, no prólogo de Esdras, os chama de sonhos, e se encontram em pouquíssimas Bíblias manuscritas, e em muitas impressas se encontra somente o terceiro. O segundo é Tobias, um livro muito devoto e útil. O terceiro é Judite, que Jerônimo diz no prólogo ter sido computado pelo Sínodo de Nicéia no número das Santas Escrituras. O quarto é o livro de Sabedoria, que quase todos sustentam ter sido escrito por Filon de Alexandria, um judeu muito instruído. O quinto é o livro de Jesus filho de Sirac, que é chamado Eclesiástico. O sexto é Baruc, como diz Jerônimo no prólogo de Jeremias. O sétimo é o livro dos Macabeus, dividido em primeiro e segundo.

Neque aliquem moveat quod in Judith et Tobiæ prologis dicitur quod apud Hebræos inter hagiographa leguntur, quia manifestus error est, et apocrypha, non hagiographa, est legendum: qui error in omnibus quos viderim codicibus invenitur: et inolevit, ut puto, ex pietate et devotione scribentium, qui devotissimas historias horrebant annumerare inter apocrypha. Nam quod hic error multis retro annis codices occupaverit, ostendit magister in historia Judith, ubi dicit: Hic liber apud Chaldæos inter historias computatur, et apud Hebræos inter apocrypha, quod dicit Hieronymus in prologo, qui sic incipit: « Viginti et duas litteras. » Si ergo alicubi in prologo super Judith legitur inter hagiographa, vitium scriptoris est, quod in ipso titulo deprehendi potest. Ex quo miror quod dictus magister non adverterit eumdem esse errorem in prologo Tobiæ, ubi ipse dicit: « Hanc historiam Hebræi ponunt inter apocrypha. » Hieronymus tamen in prologo suo dicit inter hagiographa: Glossa quoque super dicto prologo Tobiæ dicit potius et verius dixisset inter apocrypha: vel large accipit hagiographa, quasi sanctorum scripta, et ita non est de numero illorum novem quæ proprie dicuntur hagiographa, quæ sunt de catalogo, id est, de numero viginti duorum librorum Biblicorum. Nam cum Hieronymus in prologo Galeato, post enumerationem canonicorum librorum, dicat: « Hic prologus Scripturarum quasi galeatum principium, omnibus libris quos de Hebræo vertimus in Latinum convenire potest, ut scire valeamus quidquid extra hos est, inter apocrypha esse ponendum. Igitur Sapientia, quæ vulgo Salomonis inscribitur, et Jesu filii Sirach liber, et Judith, et Tobias, et Pastor, non sunt in canone » quomodo credendum est, illum postea in illis prologis scripsisse eos inter hagiographa, et sibi ipsi contradicere? Si quis præterea liberatiori examine Hieronymi verba in dictis prologis perpenderit, animadvertet illum scripsisse apocrypha, non hagiographa. Dicit enim in prologo Tobiæ: « Exigitis ut librum Chaldæo sermone conscriptum ad Latinum stylum traham, librum utique Tobiæ, quem Hebræi de catalogo divinarum Scripturarum secantes, his quæ apocrypha memorant, manciparunt. » In Judith autem ait: « Apud Hebræos liber Judith inter apocrypha legitur, cujus auctoritas ad roboranda illa quæ in contentionem veniunt, minus idonea judicatur. » Cum itaque dicat Hebræos secare Tobiam de catalogo divinarum Scripturarum, et Judith auctoriratem minus idoneam judicari, si inter Hagiographa numeraret, et non inter apocrypha, contraria videretur in eodem loco scripsisse. Sed, ut dixi, scriptores hoc nomen apocrypha horrentes, devotione ac pietate quadam rejecto apocrypha, hagiographa scripserunt.

E não deveria impressionar ninguém o fato de que nos prólogos de Judite e Tobias é dito que entre os hebreus são lidos entre os hagiógrafos, porque é um erro manifesto, e deve ser lido «apócrifos», não «hagiógrafos»: esse erro se encontra em todos os códices que vi, e se enraizou, como penso, em virtude da piedade e da devoção dos copistas, que temiam enumerar devotíssimas histórias entre os apócrifos. Decerto, o mestre na história de Judite demonstra que esse erro se apoderou dos códices há muitos anos, onde diz: Este livro é computado entre os caldeus entre as histórias, e entre os hebreus entre os apócrifos, porque diz Jerônimo no prólogo, que assim começa: «Vinte e duas letras.» Se, portanto, em qualquer parte do prólogo sobre Judite é lido «entre os hagiógrafos», é um defeito do copista, que pode ser percebido no próprio título. Por causa disso, admiro-me de que o celebrado mestre não tenha notado que o mesmo erro ocorre no prólogo de Tobias, onde o próprio diz: «Os hebreus colocam esta história entre os apócrifos.» Jerônimo, contudo, em seu prólogo diz «entre os hagiógrafos». A Glosa sobre o referido prólogo de Tobias também diz que ele deveria ter dito melhor e mais francamente «entre os apócrifos». Ou generosamente aceita «hagiógrafos», como escritos dos santos, e assim não é do número daqueles nove que são propriamente chamados de «hagiógrafos», que são do catálogo, ou seja, do número dos vinte e dois livros bíblicos. Pois, visto que Jerônimo, no Prólogo Galeato, depois da enumeração dos livros canônicos, diz: «Este prólogo das Escrituras pode servir como uma introdução defensiva a todos os livros que traduzimos do hebraico para o latim, para que possamos saber que tudo o que está fora destes deve ser colocado entre os apócrifos. Portanto, Sabedoria, que é comumente designado sob o nome de Salomão, o livro de Jesus, filho de Sirac, Judite, Tobias e o Pastor não estão no cânon», como se deve acreditar que ele, depois, naqueles prólogos, os classificou entre os hagiógrafos, e contradisse a si mesmo? Ademais, se alguém ponderar as palavras de Jerônimo nos referidos prólogos com um exame mais livre, notará que ele escreveu «apócrifos», não «hagiógrafos». Pois diz no prólogo de Tobias: «Exigis que eu verta para o estilo latino um livro escrito no idioma caldeu, sobretudo o livro de Tobias, que os hebreus, separando-o do catálogo das divinas Escrituras, abandonaram por causa daqueles pontos que caracterizam os apócrifos.» E em Judite diz: «Entre os hebreus, o livro de Judite é lido entre os apócrifos, cuja autoridade se julga menos adequada para corroborar aquelas coisas que entram em disputa.» Como, portanto, diz que os hebreus separam Tobias do catálogo das divinas Escrituras, e que Judite é julgada como uma autoridade menos adequada, se os enumerasse entre os hagiógrafos, e não entre os apócrifos, pareceria que ele escreveu coisas opostas no mesmo lugar. Mas, como eu disse, os copistas, abominando este nome «apócrifos», por uma certa devoção e piedade, rejeitaram o termo «apócrifos» e escreveram «hagiógrafos».

Rufinus vero ubi supra, enumeratis libris canonicis, in quibus cum Hieronymo concordat, infert: « Hæc sunt quæ patres intra canonem concluserunt, ex quibus fidei nostræ assertiones constare voluerunt. Sciendum tamen est quod et alii libri sunt qui non canonici, sed ecclesiastici a majoribus, et appellati sunt, ut Sapientia quæ dicitur Salomonis, et alia Sapientia quæ dicitur filii Sirach. » Et infra: « ejusdem ordinis est libellus Tobiæ, et Judith, et Machabæorum libri: quæ omnia legi quidem in ecclesiis voluerunt, non tamen proferri ad auctoritatem ex his confirmandam. Cæteras vero scripturas apocryphas nominaverunt, quas in ecclesiis legi noluerunt. »

Rufino, no entanto, no lugar referido acima, depois de ter enumerado os livros canônicos, nos quais concorda com Jerônimo, complementa: « Estes são os livros que os Padres encerraram no cânon, a partir dos quais desejaram defender as proposições da nossa fé. Contudo, é preciso notar que há outros livros que não são canônicos, mas são chamados de eclesiásticos pelos antigos, como Sabedoria que se diz ser de Salomão, e a outra Sabedoria que se diz ser do filho de Sirac. » E abaixo: «da mesma categoria são o opúsculo de Tobias e o de Judite, e os livros dos Macabeus. Eles consentiram, decerto, que todas estas obras fossem lidas nas Igrejas, ainda que não fossem citadas para confirmar a autoridade de sua fé. A verdade é que chamaram de “apócrifas” as outras escrituras que não quiseram que fossem lidas nas Igrejas.»

Præterea est sciendum quod in libro Esther illa duntaxat sunt in canone quæ scribuntur usque ad eum locum ubi posuimus: « Finit liber Esther, prout est in Hebræo, quæ postea sequuntur non sunt in canone. » Similiter in Daniele, illa tantum sunt in canone quæ sunt usque ad eum locum ubi posuimus: « Finit Daniel propheta, quæ post ea sequuntur non sunt in canone. »

Além disso, é preciso notar que no livro de Ester só estão no cânon as coisas que estão escritas até o lugar onde colocamos: «Termina o livro de Ester, conforme está no hebraico, o que se segue depois não está no cânon.» Do mesmo modo em Daniel, só estão no cânon as coisas que estão até o lugar onde colocamos: «Termina o profeta Daniel, o que se segue depois disso não está no cânon.»

Quamvis autem David, id est, Psalterium apud Hebræos non ponatur inter prophetas, sed inter hagiographa, tamen fere omnes Latini eum non solum prophetam sed summum prophetarum, vel secundum vocant. Danielem quoque inter prophetas numerant.

E ainda que Davi, ou seja, o Saltério, entre os hebreus não seja colocado entre os profetas, mas entre os hagiógrafos, no entanto, quase todos os latinos o consideram não apenas profeta, mas também o mais ilustre dos profetas, ou o segundo. Também enumeram Daniel entre os profetas.

Aliter quoque aliqui Latini diviserunt Vetus et Novum Testamentum, scilicet in libros legales, historiales, sapientiales et prophetales. Legales appellant quinque libros Moysi in Veteri Testamento: quibus in Novo faciunt respondere quatuor Evangelia. Historiales, Josue, Judicum, libros Regum, Paralipomenon, Esdra, Esther et Job: quibus in Novo correspondent Acta apostolorum. Sapientiales tres libros Salomonis, scilicet: Proverbia, Ecclesiasten, et Canticum canticorum: quibus in Novo correspondent Epistolæ Pauli, et quæ canonicæ dicuntur. Prophetales faciunt David, id est, Psalterium, Isaiam, Jeremiam, Ezechielem, et duodecim prophetas et Danielem: quibus in Novo respondet liber Apocalypsis.

Alguns latinos também dividiram o Antigo e o Novo Testamento de outra maneira, a saber, em livros legais, históricos, sapienciais e proféticos. Chamam legais aos cinco livros de Moisés no Antigo Testamento, aos quais no Novo fazem corresponder os quatro Evangelhos. Os históricos compreendem Josué, Juízes, os livros dos Reis, Paralipômenos, Esdras, Ester e Jó: aos quais no Novo correspondem os Atos dos Apóstolos. Os sapienciais compreendem os três livros de Salomão, a saber: Provérbios, Eclesiastes e o Cântico dos cânticos: aos quais no Novo correspondem as Epístolas de Paulo, e as que se chamam canônicas. Os proféticos compreendem Davi, ou seja, o Saltério, Isaías, Jeremias, Ezequiel, os doze profetas e Daniel: aos quais no Novo corresponde o livro do Apocalipse.

Novi autem Testamenti omnes qui in Bibliis ponuntur libri, sunt in canone, testibus Hieronymo, Augustino et Isidoro, in locis supradictis. Hi sunt quatuor sacrosancta Evangelia, scilicet, Matthæus, Marcus, Lucas, Joannes; Pauli apostoli Epistolæ quatuordecim: quarum una est ad Romanos, ad Corinthios duæ, ad Galatas una, ad Ephesios una, ad Philippenses una, ad Thessalonicenses duæ, ad Colossenses una, ad Timotheum duæ, ad Colossenses una, ad Timotheum duæ, ad Titum una, ad Philemonem una, ad Hebræos una. Item Acta apostolorum. Item Epistolæ septem, quæ canonicæ appellantur, quarum una est Jacobi, duæ Petri apostolorum principis, Joannis apostoli et evangelistæ tres. Judæ, qui alias Taddæus dicitur, una; demum liber Apocalypsis. Hi omnes libri pro canonicis habentur, quamvis ante Hieronymum a multis de Epistola ad Hebræos dubitaretur, quam dubitationem ipse multis rationibus sustulit. Itidem de Epistola Judæ, ac de secunda et tertia Joannis, in Ecclesia primitiva a multis, an deberent in canonem recipi, valde dubitatum est: de quarum prima sic dicit Hieonynmus in libro de Viris illustribus: « Judas frater Jacobi parvam quidem quæ de septem canonicis est, Epistolam reliquit: et quia de libro Enoch, qui apocryphus est, in ea assumit testimonium, a plerisque rejicitur, tamen auctoritatem vetustate jam et usu meruit, et inter sanctas Scripturas computatur. » De aliis autem duabus quæ incipiunt, Senior, dicit Hieronymus in dicto libro in capitulis, Joannes et Papias, quod asserebantur esse Joannis presbyteri discipuli Joannis evangelistæ, qui dicebatur senior Joannes, sed tamen omium approbatione jam sunt receptæ, et citra cujusquam refragationem pro canonicis habentur.

Ademais, todos os livros do Novo Testamento que se colocam na Bíblia estão no cânon, segundo os testemunhos de Jerônimo, Agostinho e Isidoro, nos locais supracitados. Estes são os quatro sacrossantos Evangelhos, a saber, Mateus, Marcos, Lucas, João; as quatorze epístolas do apóstolo Paulo: das quais uma é aos Romanos, duas aos Coríntios, uma aos Gálatas, uma aos Efésios, uma aos Filipenses, duas aos Tessalonicenses, uma aos Colossenses, duas a Timóteo, uma a Tito, uma a Filêmon, uma aos Hebreus. Também os Atos dos apóstolos. Do mesmo modo, as sete epístolas que são chamadas canônicas, das quais uma é de Tiago, duas de Pedro, o príncipe dos apóstolos, três do apóstolo e evangelista João. Uma de Judas, que também é chamado Tadeu; finalmente, o livro do Apocalipse. Todos estes livros são considerados como canônicos, embora, antes de Jerônimo, muitos duvidassem da Epístola aos Hebreus, dúvida que ele próprio dissipou com muitos argumentos. Outrossim, quanto à Epístola de Judas e à segunda e terceira de João, na Igreja primitiva, muitos duvidaram intensamente se deveriam ser recebidas no cânon: a respeito da primeira delas, assim diz Jerônimo no livro dos Homens Ilustres: «Judas, irmão de Tiago, deixou uma pequena epístola, que é uma das sete canônicas: e porque nela toma para si o testemunho do livro de Enoque, que é apócrifo, é rejeitada pela maioria, contudo, agora tem granjeado autoridade por causa da antiguidade e do uso, e é computada entre as Santas Escrituras.» Quanto às outras duas que começam com «O Ancião», diz Jerônimo no referido livro nos capítulos «João» e «Papias» que se alegava que eram do presbítero João, discípulo de evangelista João, que era chamado de João, o Ancião, mas, contudo, agora têm sido recebidas com a aprovação de todos, e, sem a contestação de ninguém, são consideradas como canônicas.


FONTE

WALAFRIDI STRABI, Glossa Ordinaria. In: J. P. MIGNE, Patrologia Latina, Tomus CXIII, Paris: Petit-Montrouge, 1852. p. 19.